domingo, 27 de agosto de 2017

RODEIO

Sempre, o poema que se anuncia
Parece ser o último.
Reverências por toda a parte:
A cidade parou,
A noite emudeceu e
Os ruídos todos da minha alma
Alcançam completa significação.

Sei que amanhã a mesma história se repetira:
Passos lentos,
Voz trêmula,
Compromissos inadiáveis...
Farei pequenas loucuras e me sentirei absurdamente feliz
Apesar da inexplicável significação das coisas.

Sempre assim...
A poesia me alcança,
Alcançarei o poema.
Ela vem na sua absurdeza de sentido
Ele está, sem que eu o veja ainda,
Encarapitado nela.
Uma luta de nervos em que ela o atira para a possível
Vitória da significação.


Sei que amanhã a mesma história se repetira.

domingo, 20 de agosto de 2017

SONETO DE UMA MORTE ANUNCIADA

Ele me falou da sua vida
Como quem já não quer mais:
Hora após hora sempre iguais
Por mais que fosse impressentida.

Ele me falou da fenecida
Flor dos seus velhos ideais
Já que haviam roubado, os pardais,
A esperança inconsentida.

Falou-me de lábios e de beijos,
Chorou a tristeza dos desejos
Corroído talvez pelo seu mal.

Num breve gesto de partida
Insinuou uma despedida
E saiu para a morte, afinal.

domingo, 20 de novembro de 2016

ORAÇÃO

Repetes, sem pensar, aquele nome?

Exploras a sonoridade da palavra,
Isolando as sílabas, desarticulando-as,
Identificando incidências de vogais e consoantes,
A expressividade das combinações sonoras?

Sei bem como é isso.

Na verdade, uma música acompanha o fenômeno, não é?
Sem necessidade de qualquer fonema.
Música pura,
Transcendental,
Vadia,
Anterior a qualquer forma de pensamento.

E a música daquele nome te leva e te eleva,
Porque precisas de descanso, não é?
E se toda significação te escapa,
Porque é poeira,
Fica-te uma incompreensível promessa de sentido
Naquele nome.

Um dos sintomas do amor
Está em repetir o nome da pessoa amada
Como uma oração.

sábado, 29 de outubro de 2016

PREDESTINAÇÃO

Se eu tivesse 20 anos
Te amaria...

Mesmo que fosse Rodion Românovitch Raskólnikov
Entre o altruísmo e a apatia
Entre o crime e a confissão
Te amaria...

Se fosse Salamano,
Com ou sem seu cão,
Enxotando-a
Te amaria...

Se fosse Rimbaud
Ou Verlaine
Na confusão do lirismo e dos erros
Te amaria...

Se fosse o príncipe
ou o sapo...
entre o beijo e a náusea
te amaria...

Santa ou Vénus,
Em Jerusalém ou Sodoma
Chorando sangue ou comendo terra
te amaria...

Mas sou eu,
Desgraçadamente eu
E de remorso e fatalidade
Te amo,
Porque de qualquer forma
Te amaria!

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

ATMOSFERA

Teu amor é uma nau pirata
No mar de estranhamento da minha vida.
Como evitar o assalto?

Meus olhos cedem, constrangidos e
a noite se faz mais fria.

Saio pela rua caminhando devagar,
O ar pesado paralisa-me os sentidos,
Sob lâmpadas elétricas morrem mariposas nervosas,
Um sapo imóvel olha-me sem piscar,
Rosas escarlates ofendem a paisagem pastel.

Nenhuma comoção, nem arrependimento...
Nem febre,
Nem demônios,
Nem tristezas de carmim,
Apenas a inquietude da misteriosa perda
Do que nunca tive.

Aposto em infinitos amantes
Perdidos no mesmo silêncio.



VERSOS PARA OUTUBRO DE 2016

Na esteira dos pecados
Senhores e dominados,
Abençoados por Deus!
Até chegar ao impasse
Da consciência de classe:
Loucura de Prometeu.

Capital e comunismo
E mais um mundo de ismos,
Arquétipos que vão caindo...
E na desculpa do sufoco
O povo devolve o fogo
Cobrado, ainda, no Olimpo.

IMPOTÊNCIA AGÔNICA

Quando bate aquela 
Agonia extrema
E você não para.
E então percebe
Quando já não desce
Que encheu a cara.