quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

COISAS DO DIABO

Aconteceu mesmo, final dos anos 70. Fui para São Paulo. Tinha concluído o segundo grau e aspirava novos horizontes. Deu certo: arrumei emprego e moradia facilmente. Vivíamos, então, outros tempos. Emprego numa fábrica de plásticos, sob apresentação do meu tio; moradia num quarto no apartamento de um amigo do mesmo tio. Estudava à noite, num daqueles cursos pré-vestibulares, que freqüentava sem muita assiduidade, muito encantado que estava com a Paulicéia Desvairada, de bibliotecas imensas e mulheres misteriosas. Mas não quero falar, apesar dessa ambivalente nostalgia, de traças e desencantos.
Meu locatário recebeu-me com discreta alegria. Demonstrava uma cordialidade dúbia, mas me apertava a mão com força. Seus olhos tremiam quando balançava a cabeça no cumprimento. Era de se esperar uma agitação capilar, mas os poucos fios ficavam grudados na calva oleosa. Mostrava uns dentes alinhados e amarelos, num sorriso pequeno. Ao falar, percebia-se a ausência dos dois caninos, e isto, combinado ao rosto redondo, dava-lhe uma aparência cômica. Tinha um hálito insuportável, aliás, tudo ali cheirava mal. Peso.
Uma tarde, fim de semana, sentei-me ao seu lado, numa distância confortável, diante da televisão inutilmente ligada, e conversamos longamente. Não deixava de ser uma pessoa agradável se não se lhe fixasse na figura ou observasse o espaço ao seu redor. Nas segundas-feiras recebia a visita da faxineira, que retirava a comida que apodrecia por toda parte e guardava roupas e papeis espalhados. Nunca a vi, mas sua concepção de limpeza, por certo, casava-se bem com o ambiente. Naquele Domingo poder-se-ia vê-lo esparramado no seu sofá, acomodada a cabeça numa almofada encardida, com um lençol amarfanhado aos pés. Nesta posição, quase horizontal, ia recolhendo de um prato de papelão pedaços triangulares de pizza que levava à boca, pouco se importando com o que eventualmente escapasse dos dentes amarelos. Empurraria, suponho, o referido prato para baixo do sofá que, via-se, já estava ocupado por muitos outros bem parecidos. Sobre uma mesinha, entre o sofá e a televisão, junto a um cinzeiro cheio e um porta-retrato vazio, havia uma insólita decoração de cascas de bananas de diversos matizes de amarelo que descambavam para o preto. Uma maça meio comida e alguns outros detritos irreconhecíveis completavam o escabroso retrato.
Abstinha-me de olhá-lo. É compreensível, não é? Chegava tarde e saia muito cedo para evitar me encontrar com ele. Meu quarto era pequeno, mas muito bem iluminado, com uma vista para a Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Vocês conhecem? S., gentilmente, tratou de colocar uma luz bastante forte para que eu enfrentasse noites de estudos que nunca aconteceram. Ah… Paulicéia.
Numa manhã de Sábado, encontrei-o numa circunstância inusitada. Entrou, olhando esbaforido, depois de abandonar a repartição antes do horário. Explicou-me: tinha verdadeira fobia de abelhas e presenciou, nas primeiras horas daquela manhã, uma invasão do pavoroso bicho: “duas delas! DUAS!” rondando-lhe a cama. Estava tomado de um pânico ridículo. Quase tentei acalmá-lo, mas ele não me deixou falar, tentando que eu lhe apontasse um caminho que definitivamente livrá-lo-ia do famigerado inseto. “Não quero vê-las nunca mais. Não posso, entende?”. Na verdade, eu não entendia, mas pouco me importava. Eu queria sair, queria me livrar daquilo e tive uma idéia de fato maldosa. S. caminhava olhando, apavorado. “Elas não podem voltar nunca mais”. Não queria ofendê-lo. Era melhor fugir, mas o diabo me prendia ali, diante daquela vítima imbele, pronto para atender o mais absurdo dos conselhos. Avancei com cautela, na ausência de um exorcista:
– Você tem notado que o ambiente aqui está muito descuidado, não é?
– Sim, um pouquinho, me respondeu sem olhar.
– Talvez resida nisto o problema, acrescentei.
– Como assim?!
Agora ele me olhava com dois olhos paralisados de curiosidade.
– Ora, você não sabe?! Tentei parecer convincente, prestes a explodir numa gargalhada.
– Não sei o quê? Do que você está falando?
Impossível o retrocesso a este altura. Lançará a isca com sucesso. Ele estava por demais nervoso para perceber a precariedade do meu desempenho. Ainda bem que não havia espectadores para tão patético espetáculo. Bem, só o diabo e este me dava corda e aplaudia com veemência. Desfechei.
        Ora, abelhas apreciam… sujeira… isto… isto… e apontava o sofá, a mesinha...
        Emudeceu, esbugalhou os olhos, tremi.
        Mas, mas, ma... você acha?!
        Eu acho.
E sai leve. Sem o demônio a me acossar: que vão os dois para os infernos, pensava.
Voltai tarde e antes mesmo de abrir a porta fui tomado por um surpreendente cheiro de desinfetante. A sala estava escura, mas havia luz na cozinha. Achei prudente ver o que estava acontecendo e fui até lá. Encontrei-o, sem o diabo, dando os últimos retoques na geladeira. Sem exagero, tudo brilhava! Ele me contou da maratona higiênica do dia. Gastou um rio para limpar tudo, contava. Uma fortuna em produtos de limpeza. Jogou muita coisa fora, coisas inúteis, com o prazo de validade vencido. Encontrou objetos que supunha perdidos, separou, selecionou, organizou. Tinha de se livrar das malditas abelhas.
Sabem, naquela noite dormiu em lençol limpo, com um pijama cheirando aqueles amaciantes de roupa e teve um sonho maravilhoso com a moça da fotografia que agora ocupava o porta-retrato da sala, ao lado do cinzeiro completamente vazio. Ele não me contou isto, mas eu sei que foi assim.
Mudei-me pouco depois dali, enquanto ele tomava amor por esta coisa de organização e limpeza, fui ocupar uma casa do meu tio que ficara vazia. Fui encontrá-lo novamente muito tempo depois, mais de ano, já mais acostumado aos mistérios. Quase não o reconheci. Estava até elegante: cabelos finos, dentes brancos, sem falhas, relativamente magro e uma alegria aberta. Indefectível. Contou-me, por fim, que estava pensando em montar um apiário. Leveza.
O diabo me olhou de longe, franziu a testa e abanou a cabeça.

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