segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

PESADELO AMOROSO

Conversando com um jovem estudante da UNEMAT, ele me externou um conflito de ordem amorosa e eu procurei algumas rimas, num soneto decassílabo, para tratar da situação. Manterei o sigilo do confessionário.

PESADELO AMOROSO

Quando a noite cair eu a verei
Percorrendo, calada, o corredor
E reconhecerei nela aquela dor
Que, afinal, eu nunca entenderei.

Sonho, no entanto, que decifrarei
A raiz misteriosa desse amor
E deixarei flores em seu favor
Como alguém que consagra uma lei.

Sonho-a, então, parando à minha frente,
E me beijando muito alegremente
Como quem se dá conta do destino.

Mas a realidade me desmente
E lá está ela gritando firmemente:
 “Saia do meu caminho, seu cretino”.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

SONETO À LUA

Quando o sol queima de doer
Eu sinto medo do escarcéu
E me recolho do tropel
Da humana fúria de viver.

Quando o dia cisma de chover
Eu tiro os olhos do papel,
E permaneço a olhar o céu,
Liberto para enfim morrer.

Uma força então se insinua,
Tenho impulso de sair à rua
E caminhar até o mar...

Mas chega a noite e vem a lua:
Branca, leve, livre e nua,
Pronta enfim para me amar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A MÁSCARA

Dormi profundamente a ponto de acordar bem humorado no domingo e me sentir com disposição de ir à feira livre: os sentidos todos acordados. Na verdade, a feira a que me refiro não é tão livre, como aquelas da minha infância que se fazia na rua. Está é protegida do sol por uma armação de ferro e concreto, coberta com zinco e ocupa o espaço de um quarteirão. Os feirantes não têm que armar a barraca, mas apenas distribuir sua mercadoria nos espaços a eles reservados. Uma liberdade relativa.
            Na verdade, não era comprar que me levava, às vezes, àquele ambiente, misto de comércio e natureza, mas um sentimento de harmonizar as duas coisas, o cheiro das verduras e frutas, o colorido dos vegetais, a simplicidade dos feirantes que chegava a ser de uma grosseria suave. Entende-se o sentido da liberdade quando se está preso. Havia, na verdade, mais de natureza do que de comércio, ou pelo menos mais de ruralidade em detrimento à urbanidade. Por toda parte um espetáculo aos olhos, a cada canto uma surpresa como se as frutas também olhassem os homens.
            Deixei-me entreter pelo passeio, então, com esse espírito de me libertar da necessidade de comprar fosse o que fosse. Aliás, trazia o desejo mesmo de negar os paradigmas consumistas. Vi, então, sentando a um canto, um homem robusto, vestido simplesmente, entalhando um pedaço de madeira de forma circular como um cabo de ferramenta. As mãos, de uma agilidade incrível, parecem que se moviam desarticuladas do resto do corpo. Ao verificar o quadro todo notei, também, que o homem não olhava às próprias mãos, como se elas soubessem o que fazer sozinhas. Aliás, apesar da manhã radiosa havia pouca luz naquele canto, dada à particularidade da construção. Não vou entrar em detalhes, porque não quero um conto naturalista.
– Examine isto?
Assustei-me. Era um jovem barbudo que me falava. Tinha gentileza nos olhos e uma pequena escultura nas mãos. Era uma imagem de Jesus.
– Foi você que entalhou?
– Não, eu somente a pintei. O entalhe é de Bart. E me apontou o homem de mãos ágeis.
A pequena imagem de Jesus era um trabalho de uma precisão impressionante.
O jovem barbudo, com gentileza nos olhos, não estava mais ao meu lado. Aproximei-me então de Bart para conversar, mas não cheguei a dizer nada e ele simplesmente ignorou minha presença, envolvido no que estava fazendo. Ao seu lado havia outra escultura, era esta somente do rosto de Jesus, uma espécie de máscara sem nenhuma pintura.
Bem, eu nem sei dizer por que associei aquela imagem também a Jesus, porque não havia nada em comum com a figura europeizada, consagrada pelos renascentistas, que somos acostumados a entender como sendo o rosto de um judeu, submetido ao escaldante sol da Galileia. Tomei-a nas mãos. Havia alguma coisa de rusticidade, que transcendia a própria imagem e dava àquele Cristo um ar quixotesco e apaixonado. E me veio um sentimento de calma e desespero ao mesmo tempo. Não sei quanto tempo fiquei ali, com a pequena máscara nas mãos, apreciando os contornos duros. Lembrei-me das imagens barrocas do Aleijadinho, mas nesta havia um elemento de simplicidade que captava a dor de um Cristo que, talvez, não teria o consolo da paz eterna, que trouxesse em si toda a tragédia humana do desespero da busca. Não havia a tradicional mansidão no olhar, mas uma profunda perturbação. Muitos anos depois, a imagem daquela máscara penetraria na minha alma e se tornaria verdadeiramente inspiradora da vida e aquele domingo inesquecível.
– Então, vai levar? - Perguntou-se o jovem barbudo.
– Eu queria essa máscara.
– Ainda não está terminada.
– Mas eu não posso compra-la assim mesmo, sem que esteja terminada.
Fiquei sem resposta.
– Este escultor enxerga para além dos olhos - argumentei, tentando justificar o meu desejo de comprar a máscara.
E o moço que parecia o empresário do escultor respondeu, para meu espanto:

– Sim, meu amigo, ele é cego.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

A XÍCARA

Amor! Sentimo-nos pequenos diante desta pequena palavra e sua pluralidade de significações. Rios de tinta, em verso e prosa, já se gastaram tentando envolve-la (o referente): à luz da lua e das estrelas, não é? Sentimento contraditório, antitético, ambíguo, paradoxal (o referido), que bate duro na nossa consciência, mandando ao inferno toda a laboriosa racionalidade que tentamos imprimir às nossas vidas: e que venha a dor do amor. Inevitável. Aliás, o amor é o ponto fulcral em qualquer tentativa de análise da complexa natureza humana.
Bem, tais reflexões nasceram de um encontro que tive com um velho amigo: viúvo, cinquenta anos, boa pessoa. Pois é, contou-me sua história: envolveu-se com uma estudante de 23 anos que o colocou a rever todos seus velhos valores. Creiam que eu conto a coisa com a maior isenção, apesar de abster-me do discurso direto. Amor brutal destes que botam a gente insone, anoréxico, desorientado. Todos já, pelo menos uma vez na vida, experimentaram o veneno, mas aos cinquenta a coisa beira ao ridículo. E, disse-me ele, que se fez uma relação daquelas em que os envolvidos não se aceitam, mas não se largam: ciúme crônico de ambos os lados; intervenção dos familiares com baixarias homéricas e vexames públicos. Mas a relação se sustentou, apesar de tudo, por mais de um ano. Estavam lá a comemorar os quatorze meses quando ele a pega numa dessas salas de bate-papo da internet. Na verdade, eu não sou bom para falar dessas novidades. Bem, o meu amigo ficou escandalizado com o nível da conversa que a sua namorada mantinha no referido espaço virtual com um gajo desconhecido. Bem, se fosse conhecido não mudaria muito a situação. A moça não procurou esconder nada e reagiu com espanto ao desagravo dele. E o conflito estendeu-se à concepção de amor, abrindo um enorme abismo entre o casal.
            Separaram-se. Era definitivo. Encontrei-me com ele, aliás, quando batia nesta tecla, inconformado: a concepção de amor. Davi, gritava-me ele, “o que é o amor? Quais os limites do amor?” E todas as tentativas que me vinham de abordar o problema tornavam-se inócuas, vazias, circunstanciais. Bem, tenho praticamente a mesma idade que o meu desgraçado amigo e o que se insinuou foi a certeza de um anacronismo cruel. Não havia como acalmar-lhe, pois, o espírito já que eu padecia da mesma perplexidade. Mas como sair de cena? Os tempos mudaram drasticamente. Novas palavras foram assimiladas pelo dicionário amoroso: a amizade colorida, o ficar, o sexo ocasional etc. O sentimento duradouro apequenou-se em contato físico simplesmente ou chegamos a um estágio de desligamento de ambos? Ele se riu então tentando disfarçar a dor que escapava discreta, dos olhos. E contou-me que ela havia ligado, delicada, amorosa, dizendo-lhe que o amava muito: “com os outros era apenas sexo”. Ela disse exatamente com estas palavras. Engoliu seco. Silêncio. Risos. Silêncio. Exclamação: meu Deus!
            Se agora a minha narração torna a situação engraçada, ridícula mesmo, ali, naquele banco no shopping center diante de tanta cor, consumo senti-me estúpido e anacrônico. Um sentimento fundo de solidão e tragédia. Mas não deveria ser eu a estar sofrendo. “Vamos tomar um café”, finalmente ele quebrou o clima que se fazia tenso.
O café, apesar daquela xícara redondinha que engana a quantidade, era mesmo café, tinha gosto de café. Se fosse naqueles copinhos de dose que se serve nos bares seria melhor, mas eu agarrei a xicrinha, desajeitado, e quis me afeiçoar a ela como quem resiste, num último desejo de adaptação. Ele se riu muito como se adivinhasse o que me ia pela alma. Agora sei que entendia tudo, muito melhor do que eu. Acompanhei-o, por fim, até o carro e fui a pé para casa, como sempre. Que diabo, a namorada era dele e não minha, mas o estrago estava feito e, estranhamente, eu havia queimado os dedos.
Encontrei-o poucos dias depois, passeando com a referida namorada, de mãos dadas. Sorria. Cumprimentei-o, mas ele não me viu.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

NO LÍMITE

O que dizer do limite do amor?
O tempo suspende o momento
Na impossibilidade de qualquer resposta.

Toda a verdade possível
É uma martelada na vida
Por força de todos os condicionamentos,
Mas você deixa teu corpo ficar
E eu busco teu beijo esquivo.

O corpo entende muita coisa, não é?

Amanhã morreremos.
Morrerão nossos filhos,
Morrerão os filhos dos nossos filhos.
Morrerá esta estrela
Desta insignificante galáxia
Em que este amor se deu.

Esse amor
Que existiu
No limite.

Num outro planeta,
Num futuro imensurável
A essência da vida
Consumar-se-á
Na falta de qualquer explicação.

Descansa teu corpo e aceita meu beijo.