quinta-feira, 24 de março de 2016

A DOR QUE FICA

Nas noites, quando ela me fugia,
Eu saia pela rua, transtornado,
Querendo ver cair depressa o dia,
Porque sabia que a teria ao meu lado.

E de dia, quando ela me fugia,
Eu me sentia triste e derrotado
E novamente a noite ma trazia
Curando o coração amargurado.

Na noite dos meus dias, tristemente,
Ela se foi, um dia, para sempre
E só me restou, por fim, minha dor.

E eu a tomei nos braços, calmamente,
E só assim compreendi, finalmente,
Que nela estava todo o meu amor.

quarta-feira, 23 de março de 2016

A PÉROLA E A OSTRA

(para Adiléia Silva da Rocha)

O amor que te tenho,
Que tanto lhe é estranho,
Já estava em mim,
Adormecido,
Esperando a tua entrada triunfal,
Na minha vida obscura.

Sim,
Sou um homem obscuro
Que destilou a vida
Nos guetos,
De bares sujos,
Na periferia decadente,
De gente esquecida.

Comungo a dor dos miseráveis...
A minha poesia mesmo
Nasce
Do embrutecimento,
Dos esconderijos,
Da ausência de remédio.
Aliás, ela mesma
Único remédio.

Posso entender a tua incompreensão
e até o teu escárnio.

Um homem obscuro
Que aprendeu a ler a vida
Onde ela se apresenta mais furtiva,
Onde ela foi mais negada.

A dor em todas as suas vertentes
É-me alimento
(O brilho furtivo da pérola),
À medida que extraio dela
A essência da vida.

O amor que te tenho
Que talvez você nunca entenda
E tão pouco queira
Retorna a mim,
Flui em mim
E me justifica.

O amor que te tenho
Atravessa as máscaras,
Atravessa o escândalo,
Atravessa as palavras
E o silêncio...
E descansa no eterno.

O amor que te tenho,
Se pode te servir de consolo,
Não precisa de ti.

domingo, 20 de março de 2016

METAFÍSICA DA REALIDADE ou CONVERSA DE BOTIQUIM

– Que foi, está nervoso?
            Silva entrará pouco antes, no bar do Niversino, sentou-se sem me cumprimentar, lançando-me um olhar de mau dia. Examinou a mesa e foi até o garçom. Voltou com um copo, encheu de cerveja que já ia pela metade. Pouca gente no lugar. E despencou a falar:
– Há uma ideia disseminada da existência de um segmento da burguesia, digamos assim, ortodoxos que lutam para se manter, aprioristicamente, uma separação de castas na sociedade, mas eu não sei, não sei no que acreditar. O pensamento liberal raciocina por esse viés, também, fiel á lei do mercado. Ouvi de uma senhora muito respeitável uma esdruxula argumentação, e ela disse isto na cara dura, que em outras circunstâncias (tempo histórico) ela poderia ter três empregadas pelo preço que agora só poderia pagar por uma, e tinha ainda as despesas trabalhistas. E argumentou convicta: “então, a coisa não piorou?” Eu não soube como responder, porque ela tirava essa execrável argumentação do fundo do seu piedoso coração de mãe e avó, vitoriosa na educação dos filhos e no cumprimento de suas obrigações religiosa e cívica. Mas, intimamente remoí a dolorosa conclusão de que ela não se importa com a corrupção desde que seja fruto da burguesia a que pertence e possa ter três empregadas pelo preço de uma e dar emprego ao povo.
As últimas palavras ele disse de uma maneira exasperada que me deu até medo e chamou a atenção dos demais clientes.
– Calma, do que adianta e tua indignação. Fica frio. Bebe ai, senão a cerveja esquenta.
Silva me fuzilou com o olhar. Abaixou a cabeça por uns instantes, esvaziou o copo num gole e, enquanto o enchia novamente e acenava para o garçom avançou no seu discurso, agora mais calmo. O garçom ficou parado ali, ouvindo:
– Sim, foram tantas experiências ditatoriais, um processo cíclico, que não permitiu um amadurecimento da democracia e penso mais, criou-se estruturas psicológicas doentias. Isto aconteceu em diversos períodos da história como foi o caso da ascensão de Hitler. É agora temos um segmento da sociedade que se coloca acima das instituições. Trata-se de uma burguesia elitista, autoritária, reacionária e que se realiza distinguindo castas na sociedade. O que eles gostam mesmo e de poder fazer caridade, mantendo a senzala.
O garçom, também, estranhou o tom com que Silva falava. Por fim, comentou sorrindo enquanto deixava a cerveja:
– Espero que não seja minha culpa.
Havia tanta sinceridade em suas palavras que o ridículo da situação foi coberto por uma atmosfera outra, mesmo porque Silva, já mais calmo, permaneceu com o copo vazio, meio que alheio. Por fim, disse:
– Não há culpa individual. Talvez seja até um condicionamento tolo falarmos das nossas elites retrógradas de tanto que tal assertiva foi propalada aos quatro ventos, não é? Mas o fato é que fomos o último país, depois de Portugal e dos Estados Unidos, a se livrar da mácula da escravidão. Sem contar a história do latifúndio, do coronelismo e do voto de cabresto, dos currais eleitorais etc. Talvez o que estejamos vivendo seja resquício dessa tradição cultural de dominação, forças arquetípicas em que não há uma evidência óbvia, mas trazem subjacente uma saudade dos estamentos sociais. Só há uma maneira, aliás, de identificar culpados: a autoconsciência. Acabo de descobrir que a culpa é minha.
Riram.
Silva ficou em silêncio, encheu o copo, mas não bebeu. Recostou-se na cadeira respirou fundo. O garçom procurou consolá-lo:
– Não fique triste seu Silva. Põe na mão de Deus que ele resolve.
Aprovei as palavras do garçom com um sorriso, mas não era o teor do seu discurso que eu ratificava, mas a benevolência, a amorosidade, a paz. Os olhos de Silva brilhavam e ele disparou eufórico, chamando a atenção de todos.
– Sim! A culpa é dos deuses!
Novamente o garçom:
– De Deus, seu Silva, mas Deus nunca tem culpa. São os nossos pecados... Reze que a coisa melhora.
Houve um burburinho geral de aprovação. Silva levantou-se como que pronto para a luta, apoiou-se na mesa, olhou para mim e depois para o garçom e disse como quem descobre a verdade:
– Submissão à Moira, nas máscaras circunstanciais da Ananké.
Silêncio geral. Alguém gritou:
– Mas que diabo você está falando ai, Silva.
Estrondosas risadas. Silva sorriu e concluiu:
– Eu quero mais cerveja. 

quinta-feira, 10 de março de 2016

O MURO

Parou de súbito. Já vinha, aliás, a passo lento. Buscou o banco providencial e recostou-se, porque a meditação exigia conforto. Do outro lado da rua, um muro, quebrado, sujo... Era somente um muro velho que escondia um terreno ocupado pelo mato. Bem, ele supôs que o terreno estava vazio e o mato crescia lá dentro.
Três anos havia se passado. Fora em setembro em que esteve em São Paulo, ainda casado. Ela, de branco naquela tarde entrou numa exposição de quadro, carregando-o a reboque. “Vernissage”, ela disse. “Vernissage”, ele repetiu tentando demonstrar algum interesse, mas o tédio não o deixava. A coisa se agravou quando ela se demorou por demais olhando um quadro que lhe parecia absolutamente insignificante. “O que você vê”, perguntou ela. Ele sorriu amarelo e não respondeu. Meu Deus, que sentido havia naquilo tudo? Tinha pressa de se livrar daquilo. “Mas o que você sente?” insistiu ela. Ele continuou sem responder. Tentava ver se havia onde tomar um café na instalação daquele prédio antigo. Ela segurou-o pelo braço e havia súplica nos seus olhos. Ele então teve de responder e foi uma resposta bem significativa de tudo que ele sentia. Não sentia nada, na verdade. “Veja”, disse ele, “trata-se de um borrão cinza num fundo branco”.
Ela continuou andando sem se preocupar mais com ele.
– O que foi que eu disse?
– Não foi o quê, foi como.
– Ninguém é obrigado a se deliciar com abstrações.
            O muro velho estava ali, escondendo o terreno baldio. Nos fundos do terreno, um prédio corpulento e relativamente baixo para os padrões da cidade. À direita e à esquerda do prédio construções novas, de cores claras. O que estava fazendo aquele muro velho ali? Por que ainda não o derrubaram?
            Ela, toda de branco... A pele muito clara, também... Os cabelos claros...
            As pessoas passavam indiferentes ao velho muro, mas ele estava ali: estranho, até grotesco. Um menino carregava uma bola e quando estava diante dele, pôs-se a chutá-la contra o muro e ele a devolvia. Dez, quinze metros de pura diversão. E o menino, percorrido o espaço do muro, tomou a bola novamente nas mãos e, novamente, se fez sério.
            Um catador de latinhas recostou-se nele. Decerto não se atreveria a ficar diante das construções novas, mas o muro o protegia. Não deveria haver catadores de latinhas, sujos, a perambular pela cidade, como aquele muro era uma aberração arquitetônica. Um outro mendigo aproximou-se, tinha uma garrafa nas mãos, embrulhada em um saco de papel. Olhando bem, via-se que a calçada na região do velho muro estava mais suja, e havia rachaduras no cimento.
            Curioso que haviam colocado um banco diante do velho muro, no outro lado da rua. E o seu pensamento voltou-se para o vernissage. Lembrou-se que a perdera por alguns minutos e quando a encontrou novamente ela disfarçava uma lágrima. As mulheres são muito sensíveis. Não deu muita importância para a situação, porque, certamente a noite, o cinema, ou o teatro, a animaria. E não pensou mais no assunto. Pensava agora, três anos depois, diante do velho muro. Bem, ela deveria apreciar aquela paisagem, já que ficava procurando a significação das coisas.
            Levantou-se devagar, atravessou a rua sem pressa, e parou em frente ao velho muro. Os mendigos já se tinham ido, senão conversaria com eles, irmanados pela solidão, os abraçaria, talvez.
E, por um instante, viu-a caminhando diante do velho muro, toda de branco, ela muito branca também, os cabelos claros. Insistiu na miragem, saboreou a saudade, e ela desapareceu depois diante às construções novas e claras, como um borrão cinza sob um fundo branco.
Chorou.

quarta-feira, 2 de março de 2016

O JARDIM

(à Rosineide Machado)

Quando um “não” a ameaçava,
Ela, então, voltava atrás,
Mas a flor nunca secava
Nesse seu jardim de paz.

Os “nãos”, ela ali guardava
Como os “sins” e tudo mais.
Ambos ela cultivava,
Pensando nos roseirais.

Quando caia a chuva fria
Ela sem pensar abria
As asas de serafim

E ao “não” que não sorria,
Ela emprestava alegria
E lhe devolvia um “sim”!

VIDA

Este poema veio à luz a partir da conversa que tive, pelo facebook, na noite de primeiro de março (ontem), com Barbara Nunes, sem que, no entanto, nada dos arroubos do eu-lírico tenha a ver, necessariamente, com ela, no que se refere ao dramático, mas tudo a ver no que se refere ao trágico. Dizendo de outra forma, ela me emprestou uma experiência que está subjacente a situação dramática que eu criei. 


VIDA
(à Barbara Nunes)

I
Ainda olhou-me profundamente antes de sair
De mãos vazias,
mas levou consigo alguma coisa de tal forma que
todos os objetos da pequena sala
olharam-me com grande reprovação.
O relógio de parede gritava-me um comunicado urgentíssimo
a tal ponto que as horas
tomaram um sentido de segunda ordem,
em favor à mera existência mecânica.
Afundei-me na poltrona que se tornou enorme
e abraçou-me com força crescente
num lento estrangulamento.

II
A sorte lhe foi madrasta, afinal.
Trazia um sentido claro das coisas e da vida.
Tinha medo de ser feliz e não saber.
Vivia e sofria
revel a aceitação contraditória.

O amor!?
Não o viveu impunemente
como o fazem os fracos de inteligência e
os pobres de espírito.
Não o viveu com egoísmo ou com negligência.
Deu-se de corpo e alma
a ponto de esquecer-se.

Os referenciais estúpidos da sociedade
não tiveram sobre ela efeito algum.
Fiel àquele sentimento primeiro
que gritava dentro de si.

Toda poesia se esfacelava diante dela.
Poesia viva,
ela própria
que não carecia de palavras.

A palavra, porém,
por mais que perdesse o vigor diante dela
é-lhe de um valor terrível,
de vida e de
morte.

Sua vida, sim, tem sentido.
Sua vida dá sentido à vida.
Sua morte, um dia, será um acontecimento
e aqueles que a conheceram, como eu
acordarão diferentes
só de imaginar a sua ausência.

III
O quarto escuro e o silêncio,
meu coração e o silêncio...
O vento agitando as folhas das árvores, levemente...
O primeiro pássaro, na primeira madrugada...
Um cão ao longe,
ao longe um grito,
longe, muito longe.

A água escapando da torneira
envolvendo delicadamente a mão que a busca e que a leva ao rosto
será outra.
Será outro
o rosto que se dá ao espelho,
como um enigma decifrado.
A luz que entrará pela janela
será de um sol estranho
e as coisas todas que a receberão
refletirão está luz cortante
só de pensar na sua ausência.

IV
Choraria longamente
do flagelo irreparável
da sua falta
se não houvesse descoberto,
de repente,
a Vida.