quarta-feira, 23 de março de 2016

A PÉROLA E A OSTRA

(para Adiléia Silva da Rocha)

O amor que te tenho,
Que tanto lhe é estranho,
Já estava em mim,
Adormecido,
Esperando a tua entrada triunfal,
Na minha vida obscura.

Sim,
Sou um homem obscuro
Que destilou a vida
Nos guetos,
De bares sujos,
Na periferia decadente,
De gente esquecida.

Comungo a dor dos miseráveis...
A minha poesia mesmo
Nasce
Do embrutecimento,
Dos esconderijos,
Da ausência de remédio.
Aliás, ela mesma
Único remédio.

Posso entender a tua incompreensão
e até o teu escárnio.

Um homem obscuro
Que aprendeu a ler a vida
Onde ela se apresenta mais furtiva,
Onde ela foi mais negada.

A dor em todas as suas vertentes
É-me alimento
(O brilho furtivo da pérola),
À medida que extraio dela
A essência da vida.

O amor que te tenho
Que talvez você nunca entenda
E tão pouco queira
Retorna a mim,
Flui em mim
E me justifica.

O amor que te tenho
Atravessa as máscaras,
Atravessa o escândalo,
Atravessa as palavras
E o silêncio...
E descansa no eterno.

O amor que te tenho,
Se pode te servir de consolo,
Não precisa de ti.

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