terça-feira, 31 de maio de 2016

OLHAR

(à Silvana Machado)

As coisas se fazem ao olhar que pousamos nelas.
Esta verdade tão simples,
Esta verdade tão clara,
Tarde entendi,
Subserviente a febre morna do capitalismo.

Um dia,
Antes,
Fiquei sabendo de um filósofo louco
Que abraçou um burro sob um enorme fardo,
Chorando!
E achei aquilo muito patético.

Um dia,
Antes,
Li um poema
Que falava do delírio dos loucos e dos bêbados
Como única possibilidade de libertação
E fechei o livro sem saber do autor.

Um dia,
antes,
Entrei no teatro e vi um jovem beijando a amada morta
Para morrer do veneno que a matou
E achei aquilo um disparate.

As coisas se fazem ao olhar que pousamos nelas.
É preciso saber olhar
Até a coisa se sentir olhada.

Ela sabia?
Não sei
E isto não tem a menor importância.

E ela olhava tão simplesmente,
Tão sem querer nada,
Constatando as coisas simples
Que ficavam ali paradas
Sem ninguém olhar.
Simples, tão simples,
Olhando as coisas simples
Que eu me senti olhado
A ponto de me olhar.

Os amantes mortos,
O lirismo dos bêbados e dos loucos,
O burro e o filósofo,
Fizeram sentido
Naquele olhar.

E eu,
Estava lá,
Completamente,
Naquele olhar.

domingo, 22 de maio de 2016

A DOR QUE FICA

Luzia nasceu rica. Mais jovem e única filha de poderoso agricultor e pecuarista com terras em Mato Grosso, Paraná e São Paulo. A vivacidade era-lhe a marca mais evidente. “Muita vida!” Repetiam todos que a conhecia. Fez duas graduações concomitantemente, na PUC de São Paulo, em que deu cabo aos 21 anos incompletos. Viajou muito, enquanto pode, porque a primeira crise acometeu-a aos 22 anos, uma convulsão violenta. Passará, pouco antes, em concurso público e se revestia de entusiasmo contagiante pela docência de história e por diferentes culturas.
Tenho clara lembrança, ainda, daquela noite de domingo em que ficamos olhando as fotografias de suas viagens à França e ao Egito. Ela ria auto de observações das culturas que então conhecerá e depois se revestia de discreto rubor, e baixava os olhos de uma maneira muito particular, só dela. Foi esta, sem que eu saiba porquê, a imagem que me ficou, soberanamente. Ouvi dela que em qualquer cultura as pessoas adoecem por falta de amor.
Saíamos, ainda, nestes dias, com a parcimônia permissível, e nosso recanto predileto era o Cine Ouro Branco. Chorou quando assistiu “Noites de Cabíria” e se lamentou não ter conhecido a Itália. Choramos juntos, bem me lembro, mas por razões diferentes. Ainda teve, naquela noite, aulas de Fellini, no Cinelândia (não é no Rio, mas um bar em Presidente Prudente), em que todos a cercaram para ouvir os enredos dos demais filmes dele. Ela tinha sempre uma interpretação muito particular das coisas e ouvi-la falar, por exemplo, dos filmes do Glauber Rocha era melhor do que assisti-los.
A doença se agravou e se tornaram complicadas as saídas. Por muito tempo fui tido como persona non grata por seus pais e irmãos por conta mesmo das noitadas no teatro, cinema e no Cinelândia, onde a levava habitualmente, mas com o tempo só lhe restou a minha amizade, das muitas dos bons tempos, e sentia que todos agradeciam minhas visitas.
Passou dois anos nos Estados Unidos em busca de cura. Foi doloroso vê-la partir. Ainda conversamos muito no aeroporto e ela não perdia o humor, mesmo quando emperrou a engrenagem da sua cadeira de rodas e eu não soube arrumar. “Vou perder o avião e morrer aleijada e seca por tua culpa”, mas ria enquanto ironizava a situação. Os pais a repreendiam, mas eu compreendia seu exótico humor. Deixei-a na sala de embarque, em pé, esperançosa de que voltaria curada. Choramos na despedida, mas novamente por razões diferentes.
Só visitei-a um mês depois do seu retorno. Ela estava com 25 ou 26 anos e a situação se agravará significativamente. Perdera completamente o controle das pernas a ponto de ter que ser assistida continuamente, e a doença avançava, inutilizando-a. Mas ainda me recebeu com alegria e quis saber de tudo, do meu casamento, dos meus planos etc. Tinha uma coleção de marcadores de livros que guardará para mim, ao todo nove, com registro escrito das circunstancias em que os conseguira, muitas vezes em letras trêmulas. Prometi que a visitaria toda semana.
Não cumpri a promessa.
Quando a mãe dela morreu fiquei sabendo que o pai morrera pouco antes e fui visita-la. Ela então morava na casa do irmão que, por sua vez, administrava os bens herdados dos pais e pouco permanecia na cidade. Enfermeiras rodiziavam os cuidados e uma delas ainda se prestava a ler para ela, porque sentiu que isto lhe dava alguma alegria. Luzia perderá todos os movimentos e já não falava. Olhei-a nos olhos em que havia ainda vida e tentei até sorrir, mas uma lágrima deslizou lenta pelo seu rosto, muito pálido e magro. Talvez tenhamos desta vez chorado pelo mesmo motivo. Não sei.
Encontrei a cunhada dela, no shopping, na véspera deste Natal, depois de tantos nos. Ela caminhava com os netos e, como sempre, pairou certo constrangimento quando me viu, mas veio me saudar, alegre ainda. Eu quis perguntar de Luzia, mas não soube como fazê-lo, porque as palavras vinham combinadas e comprometidas com um sentimento meio que inexplicável de desculpa. Ela entendeu e sorriu, e acenou, gentil ainda, puxada pelas crianças.
Sentei-me ali, num daqueles bancos que há em corredores de shopping center, lembrando que deveria ligar para os meus filhos, meu neto. Não liguei. Pensei que deveria ir visitar Luzia naquela noite de 24 de dezembro, mas não fui. Fiquei depois sabendo que ela morrera justamente naquele Natal. Morrer, afinal é um nascimento, pensei comigo. Não chorei por falta de companhia.

sábado, 21 de maio de 2016

EMBRIAGUEZ

(à Cindy Silva Cossolin)

É assim: entre nós repousa sempre
a garrafa gelada de cerveja...
e aos poucos a pálida clareza
da vida, foge-me, completamente.

Ela ri, brinda, brinca, sempre atenta
aos copos cheios e à garrafa vazia
e se acaso a tristeza se anuncia
uma nova garrafa se apresenta.

O movimento avança noite adentro,
as coisas vêm e vão ao mesmo tempo
que as garrafas os copos engravida.

O paradoxo está que a bebedeira
mais que a incerteza, me traz a certeira
amizade maior que a própria vida.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

TRÊS SONETOS DA ADOLESCÊNCIA

Há violinos no meu sonho requintado,
leve harmonia de cores nos meus sentidos,
quando instantes puros, ternamente vividos,
levantam-se, teimosos tornam do passado.

Vaga um segundo de dor pelo sepultado
e releio os livros já tantas vezes lidos,
no espelho da minha alma há mundos refletidos
e há fantasmas de ternura ao meu lado.

Mas já se estalam as cordas do meu violino
e turva-se em trevas o fundo alabastrino
quando te deslumbro do esquecimento vinda.

Desperto e solitário como um lobisomem
busco a noite que os segredos consomem
mas a tua imagem me persegue ainda.



Na humana coerência da razão
reajo como instável substância.
Dissipo-me no ar da imaginação:
do sonho e da vida, a reentrância,

mas permanece a insignificância...
vazio como uma bolha de sabão
eu tento encontrar meu coração
perdido numa reação na infância.

Vasculho o laboratório imenso
e incompatível a tudo repenso
e a alma perdida que não descansa.

Na desagregação da minha vida,
agitado busco a essência perdida
que existiu na pálida criança.



Que foi feito, Senhor, da tua criação?
Do exemplo de humildade de Jesus?
Da fé, amor e verdade da lição
que ele pregou a caminho da cruz?

Mas que poder e este que tanto seduz
que mina a miséria e a destruição?
Não brilha mais a divina luz?
Que foi feito, Senhor, da tua criação?

Que valor mais alto e mais forte
faz de homens agentes da morte,
escravos de um sistema opressor?

Que mentira e essa, cruel, profana,
nessa circunstância desumana
das injustiças do seu desamor?