terça-feira, 31 de maio de 2016

OLHAR

(à Silvana Machado)

As coisas se fazem ao olhar que pousamos nelas.
Esta verdade tão simples,
Esta verdade tão clara,
Tarde entendi,
Subserviente a febre morna do capitalismo.

Um dia,
Antes,
Fiquei sabendo de um filósofo louco
Que abraçou um burro sob um enorme fardo,
Chorando!
E achei aquilo muito patético.

Um dia,
Antes,
Li um poema
Que falava do delírio dos loucos e dos bêbados
Como única possibilidade de libertação
E fechei o livro sem saber do autor.

Um dia,
antes,
Entrei no teatro e vi um jovem beijando a amada morta
Para morrer do veneno que a matou
E achei aquilo um disparate.

As coisas se fazem ao olhar que pousamos nelas.
É preciso saber olhar
Até a coisa se sentir olhada.

Ela sabia?
Não sei
E isto não tem a menor importância.

E ela olhava tão simplesmente,
Tão sem querer nada,
Constatando as coisas simples
Que ficavam ali paradas
Sem ninguém olhar.
Simples, tão simples,
Olhando as coisas simples
Que eu me senti olhado
A ponto de me olhar.

Os amantes mortos,
O lirismo dos bêbados e dos loucos,
O burro e o filósofo,
Fizeram sentido
Naquele olhar.

E eu,
Estava lá,
Completamente,
Naquele olhar.

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