sábado, 30 de janeiro de 2016

VALQUÍRIA

Na meia luz do meu quarto,
Rasgando o silêncio,
Pupilas enormes me espreitam:
Inequívoca tradução,
Parada no ar,
Do mergulho em mim mesma.

Num delicado arrepio
De pelos eriçados como faíscas elétricas
Ela me passeia pela cama
Como quem flutua sob as águas,
No seu cavalo alado.
Paraliso-a repetindo seu nome: Valquíria.

Seus grandes olhos aprovam meu percurso.

Deslizo as mãos pelo seu corpo esguio,
Busco no seu olhar uma imagem
E o meu delírio absorve sua presença
Felina,
Menina...
Benignidade,
Minha amiga Valquíria.

A magia se processa,
Os que vão morrer, meus pensamentos,
Valquíria os escolta para a glória das batalhas.

Uma luz tímida entra pelas falhas da cortina
E eu caminho até a janela.

Valquíria adormece extenuada.

Já não sou quem dantes era.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

COISAS DO DIABO

Aconteceu mesmo, final dos anos 70. Fui para São Paulo. Tinha concluído o segundo grau e aspirava novos horizontes. Deu certo: arrumei emprego e moradia facilmente. Vivíamos, então, outros tempos. Emprego numa fábrica de plásticos, sob apresentação do meu tio; moradia num quarto no apartamento de um amigo do mesmo tio. Estudava à noite, num daqueles cursos pré-vestibulares, que freqüentava sem muita assiduidade, muito encantado que estava com a Paulicéia Desvairada, de bibliotecas imensas e mulheres misteriosas. Mas não quero falar, apesar dessa ambivalente nostalgia, de traças e desencantos.
Meu locatário recebeu-me com discreta alegria. Demonstrava uma cordialidade dúbia, mas me apertava a mão com força. Seus olhos tremiam quando balançava a cabeça no cumprimento. Era de se esperar uma agitação capilar, mas os poucos fios ficavam grudados na calva oleosa. Mostrava uns dentes alinhados e amarelos, num sorriso pequeno. Ao falar, percebia-se a ausência dos dois caninos, e isto, combinado ao rosto redondo, dava-lhe uma aparência cômica. Tinha um hálito insuportável, aliás, tudo ali cheirava mal. Peso.
Uma tarde, fim de semana, sentei-me ao seu lado, numa distância confortável, diante da televisão inutilmente ligada, e conversamos longamente. Não deixava de ser uma pessoa agradável se não se lhe fixasse na figura ou observasse o espaço ao seu redor. Nas segundas-feiras recebia a visita da faxineira, que retirava a comida que apodrecia por toda parte e guardava roupas e papeis espalhados. Nunca a vi, mas sua concepção de limpeza, por certo, casava-se bem com o ambiente. Naquele Domingo poder-se-ia vê-lo esparramado no seu sofá, acomodada a cabeça numa almofada encardida, com um lençol amarfanhado aos pés. Nesta posição, quase horizontal, ia recolhendo de um prato de papelão pedaços triangulares de pizza que levava à boca, pouco se importando com o que eventualmente escapasse dos dentes amarelos. Empurraria, suponho, o referido prato para baixo do sofá que, via-se, já estava ocupado por muitos outros bem parecidos. Sobre uma mesinha, entre o sofá e a televisão, junto a um cinzeiro cheio e um porta-retrato vazio, havia uma insólita decoração de cascas de bananas de diversos matizes de amarelo que descambavam para o preto. Uma maça meio comida e alguns outros detritos irreconhecíveis completavam o escabroso retrato.
Abstinha-me de olhá-lo. É compreensível, não é? Chegava tarde e saia muito cedo para evitar me encontrar com ele. Meu quarto era pequeno, mas muito bem iluminado, com uma vista para a Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Vocês conhecem? S., gentilmente, tratou de colocar uma luz bastante forte para que eu enfrentasse noites de estudos que nunca aconteceram. Ah… Paulicéia.
Numa manhã de Sábado, encontrei-o numa circunstância inusitada. Entrou, olhando esbaforido, depois de abandonar a repartição antes do horário. Explicou-me: tinha verdadeira fobia de abelhas e presenciou, nas primeiras horas daquela manhã, uma invasão do pavoroso bicho: “duas delas! DUAS!” rondando-lhe a cama. Estava tomado de um pânico ridículo. Quase tentei acalmá-lo, mas ele não me deixou falar, tentando que eu lhe apontasse um caminho que definitivamente livrá-lo-ia do famigerado inseto. “Não quero vê-las nunca mais. Não posso, entende?”. Na verdade, eu não entendia, mas pouco me importava. Eu queria sair, queria me livrar daquilo e tive uma idéia de fato maldosa. S. caminhava olhando, apavorado. “Elas não podem voltar nunca mais”. Não queria ofendê-lo. Era melhor fugir, mas o diabo me prendia ali, diante daquela vítima imbele, pronto para atender o mais absurdo dos conselhos. Avancei com cautela, na ausência de um exorcista:
– Você tem notado que o ambiente aqui está muito descuidado, não é?
– Sim, um pouquinho, me respondeu sem olhar.
– Talvez resida nisto o problema, acrescentei.
– Como assim?!
Agora ele me olhava com dois olhos paralisados de curiosidade.
– Ora, você não sabe?! Tentei parecer convincente, prestes a explodir numa gargalhada.
– Não sei o quê? Do que você está falando?
Impossível o retrocesso a este altura. Lançará a isca com sucesso. Ele estava por demais nervoso para perceber a precariedade do meu desempenho. Ainda bem que não havia espectadores para tão patético espetáculo. Bem, só o diabo e este me dava corda e aplaudia com veemência. Desfechei.
        Ora, abelhas apreciam… sujeira… isto… isto… e apontava o sofá, a mesinha...
        Emudeceu, esbugalhou os olhos, tremi.
        Mas, mas, ma... você acha?!
        Eu acho.
E sai leve. Sem o demônio a me acossar: que vão os dois para os infernos, pensava.
Voltai tarde e antes mesmo de abrir a porta fui tomado por um surpreendente cheiro de desinfetante. A sala estava escura, mas havia luz na cozinha. Achei prudente ver o que estava acontecendo e fui até lá. Encontrei-o, sem o diabo, dando os últimos retoques na geladeira. Sem exagero, tudo brilhava! Ele me contou da maratona higiênica do dia. Gastou um rio para limpar tudo, contava. Uma fortuna em produtos de limpeza. Jogou muita coisa fora, coisas inúteis, com o prazo de validade vencido. Encontrou objetos que supunha perdidos, separou, selecionou, organizou. Tinha de se livrar das malditas abelhas.
Sabem, naquela noite dormiu em lençol limpo, com um pijama cheirando aqueles amaciantes de roupa e teve um sonho maravilhoso com a moça da fotografia que agora ocupava o porta-retrato da sala, ao lado do cinzeiro completamente vazio. Ele não me contou isto, mas eu sei que foi assim.
Mudei-me pouco depois dali, enquanto ele tomava amor por esta coisa de organização e limpeza, fui ocupar uma casa do meu tio que ficara vazia. Fui encontrá-lo novamente muito tempo depois, mais de ano, já mais acostumado aos mistérios. Quase não o reconheci. Estava até elegante: cabelos finos, dentes brancos, sem falhas, relativamente magro e uma alegria aberta. Indefectível. Contou-me, por fim, que estava pensando em montar um apiário. Leveza.
O diabo me olhou de longe, franziu a testa e abanou a cabeça.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

DISCURSO DE UM DEFUNTO

            Ele já estava no caixão, no cemitério, quando começou a falar. Foi um pandemônio, um “Deus nos acuda”.
“Perdoem-me, preciso falar, ainda que morto”.
O fato é que ficaram muito, muito poucos para ouvi-lo e alguns corriam, mas depois, passado o susto voltavam para, por vezes, fugir novamente. O ritmo da fala do morto, no entanto, não se abalava à gritaria. A viúva desmaiou sem que ninguém a socorresse, nem mesmo a filha apalermada que parecia mesmo com impulsos de abraçar o defunto. Ele, no entanto, não dava conta da audiência e falava com voz fraca, mas firme.
“O sentido da sobrevivência, combinada com a necessidade intrínseca da convivência estabelece aquilo que chamamos de ética. O nossos valores… renunciá-los seria a despersonalização… a desindividuação… destruir as particularidades que nos caracterizam como fenômeno único. Somos o que acreditamos. Seguimos um norte: a vida nos impõe. A vida… A Vida! Amigos, inimigos, ouçam-me: estou vivo! Estou vivo e sou assim! Sou Eu!”
Não apontava ninguém precisamente, mas os olhos brilhavam com tal fulgor que imobilizava os que conseguiam não fugir da situação.
            “No entanto, a iniludível, a indesejada das gentes… Ah… convivemos com ela a partir do momento que nascemos. Um temor cego que, no entanto, não impede que a força do meu braço arroste o inimigo e abrace os amigos”.
            “Há nas nossas vidas um momento único em que nos deparamos frente a frente com a morte. Tudo, nesse rápido instante, passa a fazer sentido. Revemos, então, todos os nossos dias numa vertiginosa seqüência de flashes. O homem mais insignificante, mais prosaico, mais absolutamente alienado percebe a sua grandiosidade, se torna verdadeiramente Deus! Eis a vida. Neste lúcido momento, todos os seus caros valores, arduamente carregados montanha acima, rolam montanha abaixo, mas, ao contrario de Sísifo, ele sorri. Ele se tornou bastante forte e bastante grande para, como um Voltaire divino, rir de tudo”.
            “Esse momento que você ainda não viveu, eu vivi! Eis-me, pois, a rir de tudo. A sofreguidão dos que ficaram, sofrendo e chorando até a redenção. A mão que me matou… A boca que beijei… Ah… tudo é nada!”
            “Mas não se pode ser morto por completo quando se esteve tanto tempo vivo. Não por vaidade, ou por costume, ou coisa que os valham. Não… Deixe-me que vos diga, que me sobraram alguns anseios de dizer ainda algumas verdades por mais que as despreze. Deixa-me que vos diga a única razão que me faz querer voltar a viver pelo menos por um trêmulo momento: o perdão! Sim, o perdão. Perdoar todos os meus inimigos, abraça-los, renunciar a mim mesmo neste momento máximo em que me encontro comigo”.
            “Eis a renuncia, a libertação, a transcendência, a verdade transfiguradas no gosto humano do perdão.”
            De fato, ele, pouco depois, já em casa, recuperando-se, juntamente com a esposa e a filha, não dava conta de lembrar os detalhes do discurso. Foram os menos assustados, não necessariamente os mais próximos, que reconstituíram as palavras do morto, no bar do Niversino. Ele participava sorrindo e jurou que nunca tinha lido Manuel Bandeira.
            Ele, de fato, foi morrer passados treze anos, de um ataque fulminante, depois de uma rusga com um compadre por causa de uma velha dívida. O enterro foi solene e não teve discurso.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O SENTIDO TRÁGICO DA FELICIDADE

Envolver a dor,
Conquistá-la...
Não é para qualquer um.

Sei de muitas dores, mas,
Principalmente,
Sei que não sei de outras tantas.

Saber da dor é a maior conquista do Ser.
Sabe?
Saberás.

Saber distinguir a felicidade do sofrimento
Não é tão fácil como pode parecer aos ingênuos:
É um requinte da alma.

Felicidade não implica fim do sofrimento,
Não são adversos,
Não...
isto é uma ilusão dos medíocres.

A felicidade é o sofrimento envolvido,
A felicidade é o sofrimento conquistado.

Envolver a dor,
Conquistá-la!
Não é para qualquer um.

Não tenhas vergonha de chorar,
Quando o pranto explodir, incontido:
Sofra com toda a grandeza que o momento merece.

Não percas tempo, também, em tentar qualquer fuga.
A dor...
É tua.
Acolhe-a.

Ela crescerá em sentido
E lhe será a mais clara explicação
Da vida:
A completa felicidade.

domingo, 3 de janeiro de 2016

CONSCIÊNCIA (soneto dedicado a minha morte)

Madrugada enluarada. Muito frio,
Voltava para casa, embriagado,
Quando vi, caminhando ao meu lado,
Uma jovem mulher de corpo esguio.

E tentei disfarçar o meu estado,
Tomado de um estranho arrepio,
Porque era tudo solidão e vazio
De um enorme céu claro e estrelado.

Entendi o que queria a desconhecida
Que me olhou calma e enternecida
É me apontou o caminho para o norte.

Ironia. Confessei na despedida:
Sei bem que tu me apontas minha vida,
Sei bem que minha vida é a morte.

Este soneto fluiu do relato de um velho camarada, bem como da minha recente inserção ao terror e a bruxaria, por conta do trágico que é a minha praia. E vamos vivendo sem nenhuma pressa, mas rompendo os paradigmas em nome da consciência do inevitável.

sábado, 2 de janeiro de 2016

O SENTIDO TRÁGICO DA MORTE

Estranhamente, nenhuma lágrima...
Paralisada, ficou olhando o escuro
E deitou-se, assimilando o murro,
O livro, há muito, na mesma página.

Sentiu na pele o beijo do mormaço,
Brisa mais que leve a roçar-lhe o rosto.
Deixou-se ao peso do próprio corpo,
Os olhos bobos no horizonte escasso.

E a impotência absurda de morrer,
Apesar da dor profunda, absorvida
Que lhe quebrou o sentido para o norte.

Insinua-se a irônica saída:
Se a vida só lhe indicava a morte,
A morte a despertava para a vida.

Este soneto nasceu da confissão de uma aluna que se considerava estigmatizada pela perda. Conversamos em determinada ocasião que parentes dela, muito próximos, morreram num acidente de carro.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O ÚLTIMO SONETO

Vou escrever meu último soneto,
Buscar ainda a rima consoante,
Decassílabo heroico relevante,
E alteração no primeiro terceto.

Que venha um sáfico significante,
Mas nada, nada mais eu lhe prometo,
Porque ainda tenho esse segredo:
Não resisto à simpática toante.

Mas o tema será, juro, robusto:
Um amor fiel, profundo e vetusto
Que sobrevive em formidável luta.

Mas não resisto, por fim, ao impulso,
Porque foi um sentimento tão injusto
Que mando para o inferno aquela puta.

BELEZA

– Beleza, irmão!
            Um cara, que eu nem lembro o nome, largou um envelope na minha mão e uma moedinha e foi saindo. Disse ainda alguma coisa que eu não entendi. A fila estava enorme… da agência do correio da Vila Mariana. Fazia um pouco de frio em São Paulo, e, de repente, eu sentia falta de ar. Não tinha jeito, tinha de enfrentar a fila e agora ainda esse cara. Suas palavras, então, caíram na minha frente com um estrondo. “Irmão”?! Beleza!!! Que diabo.
            Uma mulher que entrava olhou para mim com espanto. Pensei que pudesse estar falando sozinho e chamando a atenção. Às vezes tenho medo de estar ficando louco. A mulher gorda caminhou para um canto do balcão e de lá voltou a olhar pra mim. Dane-se. Talvez a conheça? Não. Definitivamente não a conheço. Talvez a minha expressão a tenha assustado. Está frio e abafado e eu tenho sono. Não vejo mais a mulher gorda, a fila não anda… Beleza! Que ironia…
            Olho a carta do imbecil. O nome do cara é João e a carta é para sua… sua majestosa namorada. Tivemos uma conversa dias passados, agora me lembro, e ele me contou da beleza estonteante da dita cuja. Eu a vi e até conversei com ela, realmente é muito bonita, os olhos claros, a pele rosada e aqueles joelhos fortes… Diabo de fila que não anda.
            Acidentalmente deslizei a ponta da carta nas costas da moça que estava na minha frente na fila. Ela tomou um susto e se encolheu.
            – Mi desculpe.
            Ela me lançou um sorriso amarelo e eu dei conta que com aquele frio ela estava com metade das costas expostas. Estava com frio, sem dúvida. E fiquei distraído, olhando as costas nuas e arroxeadas de frio de uma moça desconhecida, na fila do correio. Não era como a pele da namorada do João, não, não era. Apesar de esta ter um encanto rústico. Tinha uma cicatriz… discreta, perto do omoplata esquerdo. A minha colega de fila não era feia, apesar de ser por demais magra, apesar da cicatriz. Compunha um conjunto que no todo era agradável. A saia preta… curioso que as pernas eram de um tom de pele diferente das costas. Talvez fosse o sol. Talvez, longas horas expostas ao sol. Voltei-me um pouco para ver seu rosto. Tinha uma expressão triste e dois grandes olhos mortos. Dizem que as pessoas percebem quando estão sendo olhadas, porque a moça se virou para mim e me olhou com tamanha intensidade que estremeci. Até pensei em me desculpar, mas ela se abriu num sorriso de olhos que iluminou tudo. E ficou linda, realmente linda. A beleza da namorada do João ficou opaca. Estranhamente tive medo. Tive medo do que sentia, num estrondo.
            – Você me poderia fazer um favor.
            Seus olhos sorriam. Eram de um castanho agora vivos, da mesma cor dos cabelos. Era o conjunto que nela era bonito. Tive medo de fato. É estranho como se operam os sentimentos. Toda a previsibilidade pode ruir de repente. Beleza.
            – Você poderia colocar está carta para mim. Eu vou perder um compromisso muito importante.
            – Tudo bem.
            Ela ainda lançou uns olhos de ternura e agradecimento e foi saindo. Eu fiquei olhando ela sair ao mesmo tempo em que sentia uma grande dor pelo mundo, pelas pessoas que eu não conhecia e que sofriam, pelas crianças pobres, pelos velhos mendigos. Um turbilhão de recordações me assaltou em flashes rapidíssimos. Os mortos vieram todos: meu pai, seu grito rouco na madrugada ainda escura, o cheiro do café e as risadas da minha mãe. As ruas escuras de Brejo das Almas. O cheiro do esterco, do alecrim, a saraivada de fogos em noite de São João. E Rita que nunca mais vi. E minha irmã… Tive uma absurda vontade de chorar, como quando minha mãe morreu, e eu vi meu pai aos poucos enlouquecendo. Porque perdemos as coisas que amamos? E todos os grandes sentimentos da minha vida me pareceram pequenos.
            – O próximo.
            Um sujeito me deu um tapa no ombro. Tive um sobressalto, mas agradeci e caminhei para o guichê. Caminhei como quem vai para o abate. A vida continua! Caminha infeliz! Beleza!
            – Esta carta não tem destinatário.
            Eu não pude conter o riso. Era a carta dela, com o nome e o endereço da remetente. E eu não me importei que pensassem que eu sou louco. Um carta sem destinatário? Eu sou teu destino.
            — O próximo.
            Bem, isto aconteceu há muito tempo. Voltei para Minas. Moro hoje em Belo Horizonte: há três anos. Há três anos Camila morreu, ainda em São Paulo. Aposentei-me e fugi para esquecer. Tudo ao meu redor me falava dela. Tenho um emprego que funciona com uma pequena compensação de sua enorme ausência. Escrevo um artigo semanal chamado “Flashes do cotidiano” no Diário de Notícias. Casei-me com Camila cinco meses depois daquela manhã no Correio da Vila Mariana. Camila, deixe que vos conte e feche o fio desta emaranhada história… Camila era a namorada do meu conhecido, João. Sim, casamo-nos. Ele nunca me perdoou. Camila, a bela Camila, iluminou meus dias com sua beleza e sua alegria até que uma doença fulminante a levasse de mim. Ela sorria, ainda, atravessada pela dor, a última vez que a vi. Tivemos uma filha, linda como ela.
            Nunca falei a Camila do momento que definitivamente nos uniu. Um culpa sem remissão que latejou nos meus momentos de maior lirismo. Sai do correio e beijei aquela carta, com aqueles olhos castanhos brilhantes, brincando no horizonte. O vida então me pareceu digna de ser vivida. Era como se a luz daqueles olhos iluminasse os recantos escuros da minha consciência, fazendo livre, e forte, e grande. Sentei-me num banco e as árvores todas foram muito amáveis com um verde que eu nunca tinha percebido tão verde. São Paulo, a triste e rude São Paulo, parecia-me então a Veneza dos namorados. Beleza! Certifiquei-me do endereço. O nome? Este pouco importa. Haverão de me compreender quando eu terminar o meu relato.
            Bati no endereço indicado. Era bem perto. Qual foi o assombro quando Camila me atendeu. Riu muito da carta sem destinatário. A remetente era sua mãe, a senhora gorda que longamente me examinou no correio. Num primeiro momento foi um choque sem proporções. Tornamo-nos, porém, grandes amigos. Quanto a moça que eu procurava, ninguém me soube do seu paradeiro, nem mesmo seu nome. Segundo me contou minha futura sogra: ela vinha cansada, aparentava sentir frio, pediu água e, depois de um pouco de conversa sobre caminhadas, ofereceu-se para levar a referida carta já que o correio estava no seu caminho. Pouco depois, por outros motivos, minha sogra teve mesmo que sair e confirmou que realmente a moça desconhecida incumbira-se da tarefa. Ela ainda me contou que pensou em agradece-lhe e tomar seu lugar na fila, mas intuiu que não devia. É, tem coisas que a gente não explica.
            Pois é, estão todos mortos e eu penso como nunca voltar para Brejo das Almas. Dei para escrever tudo isto impulsionado por uma desejada e inesperada visita. Afinal, por uma destas ironas da vida, o meu mais caro, querido, fiel e constante amigo, nesta manhã fria de junho, exclamou ao romper à porta:

            – Beleza, irmão!